quarta-feira, 19 de novembro de 2008

AS APARÊNCIAS ENGANAM




Cidade do interior. Rua principal de terra, estradão.
Casas, umas de tijolos; outras de madeira muito comuns
aqui no estado do Paraná por conta da imigração japonesa
no começo do século XX.

No final do estradão lá estava ele. Um sujeito esquisito,
branco, quase transparente, bigode e cabeleira brancos, fartos;
camisa enxadrezada e aquela maldita calça de suspensórios,
Quase ou era seu uniforme, já que nunca trocava de roupa.
Se se colocasse as mesmas em pé ficariam eretas, pois, em dias
de vento e sol, o poeirão vermelho destas plagas pintava tudo.
Final de tarde. Saiu e entrou várias vezes mirando o
céu, já que nuvens negras escondiam o resto de luz.
Resolveu. Precisava comprar um penico.

Lá vem ele, o cabeça branca, cara de Einstein. Braço
totalmente engessado em posição semi-vertical (única
possível). Um curativo 3M no nariz (espinhas?), braço direito
em posição natural. Assobiava, de vez em quando, em intervalos
de 30 segundos mais ou menos. Rodopiava a mão direita como
se estivesse regendo uma orquestra.

Chegou à venda. E, num falar gestual, comprou o penico.
Por quê? Porque seu banheiro era fora, de fossa, e ultimamente
sua desinteria era fulminante. Não podia sequer peidar
sossegado. Era pin! e no pum!... tava cagado! Aproveitou
também e comprou uma dúzia de ovos, embrulhados em papel
de pão (gramatura 53g).

Eis que aquelas nuvens negras desabam em chuva torrencial.
Esperou diminuir. Saiu da venda e pôs-se de volta. Ele podia
esperar a chuva passar, e daí? - mas havia deixado o feijão
cozinhando. Precisava voltar. Sua casa ficava o quê?, uns
250 metros dali.

Com o braço esquerdo engessado em posição semi-vertical,
nem sequer os dedos podia mexer, tinha que levar os ovos
e o penico. Seria fácil. Seria. Mas o cara de Einstein não podia
tomar chuva. Tinha uma sinusite crônica, incurável e nem ao
sereno podia se expor que sua cabeça ficaria a ponto de explodir.

O que ele fez:

Só podia usar uma das mãos. Colocou os ovos dentro do penico
bem calmamente e o penico na cabeça, como um chapéu.
Com o braço esquerdo (do gesso), num esforço sobre-humano,
mantinha o grande penico inclinado para trás para ter ângulo
de visão. Seu braço direito mantinha-se em posição diagonal
como se estivesse cumprimentando alguém, estático. E vinha,
desviando-se das poças d'água barrentas, deixando suas
marcas em relevo que iam se desfazendo com as gotas de chuva.
Os passantes, a 30/40 metros, miravam a cena. Uns riam
em dueto; outros, abaixavam os olhos rindo por dentro:
-- Que figura essa! Um desconhecido, sombrio, novato por estas
bandas, com suas roupas estranhas para os padrões atuais.
-- Parece até que não toma banho. Nem cachorro chega perto dele.
Ai, Deus me livre!
-- Que modo de andar mais ridículo.
-- Patético, há-há-há!"

Chegou à sua casa. Com muito jeito, desligou o fogo do fogão.
Inclinou a cabeça e cautelosamente colocou o
penico sobre a mesa. Voltou à porta entreaberta e várias vezes
fez uns movimentos como se estivesse masturbando um pênis
imenso. Em seguida, fez um movimento como se estivesse
pendurando um objeto no prego da parede ao lado da porta.

Epa! Gozado... suas roupas estavam secas, o gesso estava seco.
Descalçou as botas. Fritou três ovos e os colocou sobre o feijão dum
prato, não, duma travessa. Comeu até o fiofó fazer bico. Enfim,
podia peidar a vontade sem ter de sair correndo, sem tomar sereno...
Estava feliz. Podia dormir feliz.

Nessa mesma noite seu celular Motorola, com tela a laser, toca.
- Aa--. É o-o Al-al-ber-t.
- É o Jack. Meu governo, que já te deu US$ 100 milhões pelo
tele-transporte te dará mais 100 por este guarda-chuva invisível.
(OBS: o diálogo estava em hebraico, mas eu traduzi).



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