o cômodo viver





sinto-me deprimido. talvez porque ontem foi domingo.
encontro-me na madrugada de segunda no banheiro
de casa.

mais uma vez perdi-me no ostracismo do CÔMODO VIVER.
afinal, a distância que me separa no dizer já é pretérito. é
o improvável 'cômodo viver'.

digo isto com a intenção de fazer uma rápida análise - ou
anti análise - do fato pouco novidadeiro e contemporâneo.

cômodo em termos imediatos - comodamente falando -
é uma expressão de cada ser de acordo com as circunstâncias
em que o indivíduo possa aplicar sua vontade de maneira mais,
mais...cômoda!, mas aí deixa de ser expressão e torna-se vício.

estou cheio deste cômodo viver. viver comodamente é omitir-me
de meus direitos de cidadão. por exemplo: é muito mais cômodo
deixar tudo nas mãos dos políticos com meu voto. só um exemplo,
oquêi!

viver comodamente é sempre esperar que algo aconteça dentro da
lei do mínimo esforço, sem eu ter feito nada para tal. cômodo é
acreditar na sorte. cômodo é ter esperança. cômodo é achar que o
começo de ano é especial. mas, e o tempo presente?

você deve achar que meu discurso é pessimista, não é? mas esta é
uma maneira de ser cômodo. é uma opinião sem analisar a questão.
agora, se mal pude dizer o que penso do termo 'cômodo', não me
pergunte sobre VIVER. sim, eu sei que é uma posição cômoda.

ficar deprimido também é viver comodamente. por isto, adeus
depressão. vou assumir meu sofrimento existencial como uma
dádiva, não como um martírio.

a cada momento certifico-me de quão maravilhoso é viver. peraí,
isto é muito cômodo! estou sendo esperançoso sem causa novamente.
mas preciso, creio, apenas ser consciente.

afinal, por que falar tanto? costumo dizer que ouvir é apanhar
os sons com a alma. assim torno-me não tão mecanizado e
acrescento outras matizes a minha cinzenta, pálida inteligência.

não quero acabar de escrever. ainda me faltam algumas linhas
como muitos dias pra preencher minha vida. e parar de viver é
uma posição cômoda.

se eu voltar a ler o que escrevi já não terá o mesmo significado
porque já faz muito tempo. passou. não sou o mesmo de 15 minutos
atrás. a cada pensamento meu universo se  modifica, expande-se.
mas estou ciente de outro semelhante que aniquila-se pela
incoerência de suas dúvidas.

não tento achar um caminho pré-determinado pelos meus preconceitos
e/ou opiniões. a cada segundo penso no vento a apagar minhas
pegadas incertas na personalidade de se viver. e ter o presente - este sim -
o novo, o verdadeiro.

(1990)


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Companheiros de Estrada & Amigos