segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Um lugarzinho ao Sol.





Um lugarzinho ao Sol.



Era uma manhã como outra qualquer.

Eu e o Zarolho estávamos atrás do prédio.
Ele cagando e eu catando goiabas verdes.
Até pusemos nossas camas de papelão no Sol.
Já havia lavado o rosto no córrego poluído.
Na noite anterior nem as putas e os travecos
vieram fazer ponto lá no frontispício.
Só apareceram os manos do crack pra fumar o cachimbo da paz.
E trouxeram a Manuela Chic-Chic: a maluca que eu transo
sem camisinha. Ela me falou que ganhou, lá no Posto de
Saúde, comprimidos anticoncepcionais vencidos. 



Nossa casa é um imenso salão antigo e abandonado.
Aqui se reúne a nata dos excluídos: catadores de reciclável,
cachorros magros sem dono, viciados, e livres pensadores.
O cheiro de urina predomina. O de azedo, idem.
Aqui temos nossas reparticões.
Cada um é cada um no seu quadrado.
Não temos hora de sair e entrar. E a casa está aberta a todos.
Aqui é o paraíso podre do podre social.
Nossa comunicação, com tanta tecnologia, é interpessoal,
boca a boca e no pé do ouvido.
Já não sonhamos, apenas sobrevivemos... fazemos pro gasto.
Penso que, nos áureos tempos, este depósito recebia cargas
desviadas pela máfia das transportadoras, sei lá, bebidas,
produtos cirúrgicos, papel, etc.

Combináramos, eu e Zarolho, dar um 'chego' na feira depois
do meio-dia, pra fazermos um banquete com as xepas.
Gosto muito de ler jornais antigos e livros que cato
nas andanças noturnas que faço. Até tenho um dicionário
numa prateleira de madeira que fiz. Quando surge alguma
dúvida todos perguntam pra mim: "E aí, Mestre?"
Vem-me a conclusão: Os livros são velhos, mas suas histórias
não envelhecem, sempre penso nisso.
A polícia sempre passa nos encarando com olhar superior.
A burguesia cata firme nas mãos dos filhos como se fôssemos
biombos andantes...

De repente, a invasão. Chegou o pessoal da demolidora
com dois tratores Caterpillar amarelos.
Empunhavam armas nas mãos, ou melhor, marretas e
picaretas.
O prédio, nossa casa, ia ser demolido. Que tristeza.
Ratos e baratas perderiam os lares. Os cachorros
se vagueariam pelas ruas movimentadas até que
a carrocinha os levassem pro sacrifício.
Os manos, as putas e os travecos teriam que arrumar
outro ponto na avenida dos desesperados.
Mas o cara, acho que o chefe, acompanhado de meia dúzia
de policiais, foi gentil conosco: "Cês têm 5 minutos
para virar um pó, cambada de vagabundos!"
Um a um fomos nos retirando com nossos pacotes.
Os manos das carrocinhas tentaram dialogar, pedir um
tempo maior pra juntarem o seu ganha-pão.
Ainda observei as pombas, pousadas na barra de sustentação
do telhado de placas de 0,5 mm de espessura, acho.

Eu e 'Zá', apelido, catamos rapidamente nossos trecos.
Coloquei na minha bolsa de couro meus livros, pois não
uso pente nem escova dental, nem sabonete nem aparelho
de barba, muito menos desodorante. Tenho sim, algumas
cuecas que troco semanalmente e as lavava no córrego
atrás do depósito. Ah, o resto de minhas quinquilharias
soquei em minha mochila de lona encardida.
Saímos pacificamente sem rumo. Aliás, todos. 

Nas despedidas os olhares fixavam-se 180 graus a um
vazio sem ponto de referência: tristes, órfãos.

Mil palavrões metralhavam na minha cabeça. Fazer o quê?
Dizem que nós, os marginalizados, somos independentes,
egoístas demais, e queremos que o mundo termine em
barranco, é dizem, mas o Zá é mais que um irmão pra mim. 
Toda treta a gente bate ou apanha junto.
Toda comida a gente divide. Jamais pisamos na bola.



Choramos muito internamente. Que absurdo!
Tanto espaço e já não tínhamos onde reclinar a cabeça.
Iríamos pra onde? Pra debaixo do viaduto? Favela
nem pensar, pois somos uma classe inferior.
Perguntas pertinentes naquele momento.
Fiquei chateado por não poder ir à feira.
Que destino terão todos?
Cortou-me o coração o êxodo imposto.




***