Poetas são ciumentos



O espírito que habita nos poetas tem ciúmes. Ele é
atemporal (será?), mas o ciúme tem prazo de validade.
Tem aquela vozinha falsa e silenciosa -- que só o verdadeiro
poeta escuta, longe de ser assombrosa -- cochichante em
seu ouvido: "Externe versos ou cale-se pra sempre".
Aí que está o xis da questão. O poeta pode até deixar de
escrever, mas nunca se calará pra sempre, porque a vozinha
que ele escuta, na verdade, são captadas por seus olhos
que não veem o espírito, mas está ciente de que um dublê
o persegue e diz -- por ele, só pra ele -- do sentir intocável.

Poetas são ciumentos. Querem que tudo gire em torno deles,
sem hipocrisia. Poeta é tão ciumento que, quando se olha no
espelho, diz: "Sai daí, você está ocupando meu lugar! Que
cara é essa?" E desconversa-se... Acha-se o maior, reflete,
e fica no meio termo entre o belo e o feio. Acaba por ir dormir
achando uma e outra coisa, ou todas... com o traço dos desenhos
de carinhas tipo "emotions".

Acho o poeta um tipo de narciso incomum, pois ele cega-se
a seus defeitos e conceitos físicos. No espelho ele não quer ver sua
feição, mas seu estado de espírito. Dizem que a beleza vem de dentro
pra fora. Descreio, pois o nascedouro é externo, ou melhor, a beleza
está nos olhos, por isso eu me amo, e, sem querer ser egoísta,
digo ao espelho: 'Tenho ciúmes de tudo que reside em mim, até
desta minha cara definhante, mau-acabada..."



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