quinta-feira, 13 de março de 2014

Quando você não admite, mas aceita sob protesto



 Quando você não admite, mas aceita sob protesto
(Para maiores de 60 anos)


De repente os pelos aparecem indesejosos
no nariz, na orelha, nas costas... grossos... encravados...
enquanto os da cabeça caem, rareiam-se tão fininhos...

Fico pensando, talvez, num implante... sem grana!
Bem, mas os dentes, um pouco mais amarelecidos
por conta do cigarro, insistem em permanecer.
Menos mau. Pelo menos isso.
Tem uma amiga minha, a Neide, que implantou
todos e ficou com um sorriso maravilhoso, apesar de
ter 65 anos. Rejuvenesceu. Bem, ela pôde pagar,
porque é muito caro um sorriso perfeito. Enfim...

Ah, minhas unhas crescem mais rapidamente e
quando sento-me no degrau da escada e curvo
a coluna...  dá um estralo daqueles, ui, ufa!
ai!... acabei de tomar um laxante... ando meio ressecado.

Os olhos estão meio embaçados para letras pequenas.
Mas se passar um rabo de saia, hummm!, sou capaz
de ver a minúscula pinta na coxa da moça. eh, eh, eh.
Ah, mas morro de medo dum impacto fulminante!
Penso: perco o pelo e tudo mais, mas não o faro.

Ontem fui dar um rolê de bike. Fiquei assustado com
meu cansaço... um tubo de oxigênio viria bem a calhar,
pensei.  Minha barriga é pequena: nem preciso de espelhinho
para ver o enrugado. Todo dia penso em fazer flexão abdominal
para reforçar a força dos braços e ter aquele tórax de jovens
propagandistas de aparelhos de ginástica. Balela!

Tento esticar a pele do rosto, deixá-lo lisinho como os dos artistas
de Hollywood. Não dá. Devo aceitar que estou na descendente.
Preciso de um plano de saúde urgentemente,  Ei, não estou
preparado psicologicamente pra aceitar meu início do fim!
Meu espírito é jovem,  mas, quando vejo minhas cãs... caio na real.

Como de tudo. Eu mesmo faço minha dieta. Gosto de todas as frutas,
menos de jaca e jatobá. Explicação: sofro de síndrome jaquiana, pois
quando garoto uma me caiu na cabeça --, o jatobá, acho o cheiro horrível,
além do que amarra a boca. Ah, tem também a fruta que jamais enjoarei,
sabe como é... idade do papagaio ou do condor?... só consultando.

Bem, não quero me alongar falando de mim, mas sim da minha (quase)
velhice. Sofro de apagão parcial (nova doença?). Mas as palavras,
embora sejam as mesmas, renovam-se dentro de mim. Palavras
são meu elixir da juventude. O problema é que não as engulo, mas sim
as descarto num vômito. Hum! minha barriga tá vazia! Que fome!

Ontem eu fui ao mercado. A fila do caixa estava grande.
Veio uma funcionária e disse-me para entrar na dos aposentados.
E, no ônibus, uma senhora de meia idade ofereceu-me o banco.
Sinais dos tempos, refleti. Fiz bico. Será que elas não viram que sou
jovem?! Corri pro espelho mais próximo! Prometi a mim mesmo
que vou me inscrever na próxima maratona de São Paulo.



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