segunda-feira, 21 de abril de 2014

O fim do último







E chovia. Ele não se intimidava, ilhado, ali no aclive.
Era janeiro de 2031. Céu cinza. Arco-íris de retículas negras.
E chovia. Ele não se intimidava com as ratazanas famintas que aportavam.
Ligou o rádio de pilhas. Uma voz desesperada anunciava o fim dos tempos.
Acendeu um cigarro de palha. A bolha de pus e sangue vertia abaixo do umbigo.
Contorceu-se de dor. Aplicou na veia a última injeção de morfina. Adormeceu.
O mundo era o câncer; o câncer, sua última lembrança.
Despertou com as ratazanas roendo-lhe os pés e as espantou.
Ligou o rádio novamente. Estava mudo.
...
Instantes depois, saqueadores de ilhotas que se formaram com o dilúvio,
roubaram seu rádio, seu binóculo, suas roupas, seu chapéu dos tempos que
ganhava a vida como peão de rodeio: um ganho extra que doava ao leprosário.
Deixaram-no, ali , sem compaixão. Mijaram em sua chaga.
Meio aos últimos gemidos morreu, certo de que a humanidade não mudará jamais
mesmo numa situação limite.
No último olhar adorou os ratos.


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