segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Apenas um porto distante.







Tive um amor que brincava no parque gramado,
ao lado dum palacete. Ela era tão linda, intocável.
Não sabia de minha existência nem sequer que eu
era um príncipe.

Tive um amor jovial -- também linda, de rostinho
angelical -- que eu chamava de menina-colorida, que
curtia Beatles, Stones e lia Shakespeare, Camus,
Kafka, e, na época, poderia estar de rolê numa
rua de Sampa, Nova Iorque, Londres, ou talvez
num sarau de malucos numa praia selvagem qualquer.

Tive uma amor, aos 35, dumazinha que conheci no trem,
que nem sequer sabia se expressar. Mulher rústica e
sem maquiagem, insaciável sexualmente e carinhosa
ao extremo. Havia uma diferença abissal em nosso
confronto intelectual. Vi que nem os livros, os puteiros,
nem as baladas, nada, nem minha experiência serviram
de anteparo aos perfis que eu até então desejara.
Perdi-me de paixão.

Hoje, velho, estou só -- relendo os postais antigos de flertes
amorosos que vivenciei. Acho que caras como eu amam
muitas mulheres, até as idealizadas desde a infância.

O que eu mais quero é que uma mulher de verdade
me encare olho no olho, que me puxe pela camisa
e me diga: "Eu te amo. Antes de te conhecer eu
nunca soube o que é amar. Dou-te toda liberdade
do mundo, mas faça de mim o teu poema. Veja em mim
você no sexo oposto. Vá e volte: eu espero."

Acho que não busco mais as diferenças comportamentais,
de estilo de vida e quetais. Busco uma companheira que
seja humilde sem humilhar-se. Talvez eu nunca perca
meus sonhos infantis, joviais...adultos. Há muito deixei
de ser exigente quanto à estética feminina examinando-me
minuciosamente frente ao espelho. Não quero me tornar
um velho rabugento, pois, até para eu recriar
novas fantasias, penso que morrerei monologando
sobre o sentido da vida nos três tempos do verbo sonhar.

Desejos são pendentes desde a semente... do primeiro choro.
Mas, falando francamente, há algo mais importante: 
os princípios básicos da existência. Talvez o resto
sejam os componentes secundários que se vão
recolhendo conforme a idade. Será?


"Nunca quis ter coisas valiosas demais. Não.
Penso que o amor é sem-fronteiras. É um dom
gratuito, sincero como o orgulho que tenho
de um dia ter me sentido ingênuo."


***