domingo, 3 de agosto de 2014

prelúdios






tudo que nasce
até depois da morte
é um rio bufante
à espera da seca
anunciada.

tudo que morre
como a viagem que um dia fiz
num trem pra altamira
pra fugir e fingir que eu fugia
sem canção de despedida
é só a vontade regressa
de recomeçar a partir
do ponto onde fui buscar
o quê da vida

tudo que nasce e morre
dentro de mim
são dias imprevisíveis
como o temporal e a seca
que observo
tão vivo e paciente
mas já sem forças
para empinar pipas
subir na árvore do vizinho
roubar uma fruta
arrumar um amor ao acaso
nos acordes do violão

tudo que nasce
até os modismos joviais
já não me faz sentido
como aquela marca de cigarro
de 30 anos atrás

no  presente
como é duro ver o meu passado
e a voz do futuro me puxando
dizendo: 'esqueça
tudo que morre
desde agora
em você
nem sequer nasceu'

ontem
quando fui ao cemitério
visitar o túmulo de meus parentes
no qual os restos de minha mãe viram pó
não sei porquê
entre tanta gente
renasceu o choro em mim
o choro dum amante buscador de solidão
que há muito morrera

talvez o meu choro de ontem
seja o rio bufante
à espera da seca
anunciada
sei lá

talvez
as paragens sejam outras
e minhas fugas e passagens
lugares que o tempo apaga


***