sexta-feira, 5 de setembro de 2014

um grito ávido






poema de minha mocidade, 1977


UM GRITO ÁVIDO
 (um canto)

Minha voz há muito tenta cantar
Ao deus co chão, ao deus do mar
Exemplo de pureza na amical natureza
Que culpo-me em ocultar.

Minha voz há muito tenta cantar
Mas entre outras ademã
Sou apenas um quidam
Prisioneiro da soledade
Descrente na inverdade
De ser dela mais um cultor
Na frigidez duma cidade.

Minha voz há muito tenta cantar
Pra uma luz muitas mentes luminar
Fazendo-as pensar
Na passarada que não sabe nada
Apenas voar
Pelo mundo afora sem medir a hora
E cansada voar.

Minha voz há muito tenta
Não censurar a inocência,
Há muito tenta poder separar
O tal riso de muitos por ele chorar
E mesmo que a história não mude
Este canto bom é a essência
Que culpo-me em ocultar.

Minha voz há muito tenta cantar
Mas seu som é duma avena
Numa gruta distante, inescutável, invulgar
Tal lágrimas caindo em mútuo apreço
E, entre tantas opções, às vezes, a esqueço.

Minha voz há muito tenta cantar
Ao deus do chão, ao deus do mar
Molduras de natureza ao ar
Perde-se ao vento fazendo-me calar
Mas resisto como a nau na tormenta
Rebelo-me aos homens como os cães

Se eu tivesse uma estrela
Muitas mentes poderia luminar
Fazendo-as pensar
Na passarada que não sabe nada
Apenas voar
Pelo mundo afora sem medir a hora
E cansada voltar.

Minha voz há muito tenta cantar
Ao deus do chão, ao deus do mar
Pra um dia em todas consciências
Uma signa agerata hastear
Fazendo-as pensar
Na passarada que não sabe nada
Apenas voar
Pelo mundo afora sem medir a hora
E cansada voltar.

Exemplo de pureza na amical natureza
Que culpo-me em ocultar.




(rehgge, 1977)

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