esta dor.




esta dor que me vem
de espíritos me fitando ao longe

esta dor
de um fruto vistoso e saudável por fora
mas oco e podre por dentro
carrega uma semente

esta dor
pulsa
em frêmitos gemidos
jamais será poesia
mas sim apenas garranchos 
indecifráveis de ulos 
que se perdem no tempo

esta dor
um rio sem margens
sem águas contínuas
de repente
arrebenta as comportas

flui por espaços intermináveis
carrega a semente
ao terreno fértil
dá lugar aos versos
apaga as sombras dos espíritos

esta dor que me vem
fere
o depósito de cicatrizes mentais
intercede a um novo ânimo
um novo ingresso para a vida

ranhuras profundas a atravessar
pra chegar ao riso  improvável


***









poema simplório à procura de um título que o embeleze e faça sentido, afinal, o que vende é título




da versão de mim 
tenho aversão

melhor extremar
do que palpitar 
sem convicção

rio sem margens
povoa minha visão

ignorante
sou poço 
poça rasa
d'água barrenta
em ebulição
[com minha erudição não há quem possa]

me permito de mim
só a ficção

parece que vejo-me 
na vida dum herói de gibi
capaz de resistir a tudo

num tempo decrescente
corro manquitola
como um papa-léguas saci
....





***

Jaqueline.

Jaqueline morreu mocinha.
O pai dela há muito nas nuvens era inquilino
A mãe abandonara a casa e  perdeu-se na vida iludida por um marujo
e  ninguém soube mais  de seu paradeiro.

Só eu trago-os na memória e, depois de mim,
nossa história amical virará pó até parecer que nunca existimos...

Aqui, vagando à toa sem destino, lembrei que também fui menino.
Adorava meus pais tanto quanto Jaqueline, e chorava escondido,
até sem querer, pela incapacidade de pintar a vida do meu jeito.

Se os olhos são os espelhos d'alma e o pensar a alma dos olhos,
creio que não há nada de novo em mim, apenas sobrevivo com meus relances
sem entender por que a vida é assim...

Quando nem damos conta já estamos definhando no cenário mutante
que nos faz, simplesmente, artistas de um a peça só, onde os dias
é que contam nosso trajeto e, quando vem a saudade,
temos o que resta de nossa existência pra esquecê-la.

Algumas lembranças, sem querer, permeiam nosso imaginário
e nos enchemos de desmetáforas até perdermos as ilusões lunáticas
que nos incitam a continuar e, alguns ciclos vitais, simplesmente,
vão se apagando, tanto que nem me recordo mais o que me levava
ir a casa de Jaqueline e por que eles gostavam tanto de mim e eu deles.

Quando eu já era moço, descobri que nós dois éramos filhos adotivos;
descobri que ela foi meu primeiro amor e eu o dela. Uma de suas amigas,
anos depois, me entregou um caderninho com muitas declarações escritas
em coraçõezinhos sobrepostos.

Depois de tanta timidez e ingenuidade, depois de Jaqueline, meus amores
nasceram manchados de outros sentimentos, e o pilar do que eu sentia
virou um túmulo em que só  o orvalho adorna... As nossas casinhas, pareadas
no mesmo terreno, deram lugar a um grande edifício. Quando passo em frente
nem acredito que ali morei e ali  morou meu único amor, aprisionado dentro de mim,
imutável em noites que, quando garoto, eu acreditava ser eternal...


vida
uma vala estreita
de falhas e imprecisões
mas o que seria de mim
sem minhas ilusões

o que seria de mim
se meu eu-aviador alça voo
em cada percalço
e
se a cada queda livre
antevejo biombos
pulos e tombos
pra decolar
com tanto fim de mundo ao meu encalço


guardo na memória
dias que jamais voltarão
linhas de um novelo
hoje apodrecidas
as quais
amarrei o tempo

(ingênuo)

para que o amor
sim
inconteste
nunca fugisse de meu interior
rápido
como um 'delete'
de uma imagem inapagável

e
se este nobre sentimento
um dia se perdesse ao vento
que ainda eu o peneirasse
na velhice de minhas
relembranças
por vezes malvadas
tal
a visão de um rio
a arrastar tudo o que lhe cai à margem
...
talvez eu seja apenas um lago abissal
de aparente calma
capaz de tragar para dentro de si
os risos triste/alegre
de idas primaveras


***
































Companheiros de Estrada & Amigos