quarta-feira, 26 de julho de 2017

pescador de ilusões.


a maré esquece suas conchas na areia
os riscos no céu
estrondosos
ensurdecem as ondas até os abismos das pedras
pintadas de cores metálicas


um barquinho solitário flutua na gangorra do mar
(um pontinho que sobe e desce meio ao redemoinho)

o coração do navegante palpita com suas manobras frustradas
mas traz lá no fundo um único desejo
o de chegar a salvo ao seu canto de repouso

pra no colo da amada
(a musa de suas ilusões)
contar mais uma de suas aventuras
num dia de trabalho
...

se dessa vez ele ainda regressar
sem as tempestades que a cabeça cria


***















o passarinho azul


indo do quarto pra cozinha
um canto inesperado pela janela ouvi
lá fora num galho seco
um passarinho azulado
saltitava
piava 
cantava e dobrava
como se me dissesse
estou aqui

sempre na mesma hora
na mesmo local ele aparecia
pra colorir meu dia
e eu ficava ali observando 
até ele ir embora

por um tempo
de repente ele sumiu
fiquei magoado
afinal
não passo de um ser vil
quase já o tinha esquecido
mas
andando pelo quintal
entristecido
vi um casal azulado
construindo um ninho
no beiral do telhado

fiquei feliz
não tinha me abandonado
arrumou uma fêmea
estava enamorado

pensei em mim
ensimesmado
vi que somente eu
vivia sem ninguém do meu lado

eu tinha algumas lembranças
na minha casa
onde por vezes eu também cantava
mas nem mais os espíritos
das mulheres que antes eu amara e me amaram
atendiam meu chamado


**





terça-feira, 18 de julho de 2017

mãos.








na destra, a verdade
na canha, a mentira

se se cortasse uma das mãos
quantos veríamos íntegros
sem desenganos e falsidades?

não importa a mão
acenadora ao negror dos quatro ventos,
importa a mão que mostra a luz.

no globo cosmomaneta
minha mente é balança pensa.

devo julgar outrem
ou a mim mesmo?...
se já nem sei
das verdades e mentiras absolutas
fluentes nos dois extremos...


***

forró do agá dois ó.





agá dois ó
agá dois ó

fome sede
seca terra
guaia e pó

agá dois ó
agá dois ó

São Francisco
manda toró

morre Maria
morre João,
morre gado
morre chão,
morre Velho Chico
morre ilusão

agá dois ó
agá dois ó

duma cruz só
lá me vou
a outro cafundó
vou me vou
de mim tenho dó

perdi mais de cem
perdi filhinho
barrigudinho
perdi meu carijó

assim num dá
tem jeito não
quanto mais seco
em vez d’água
mais promessa
dum tal cidadão

agá dois ó
agá dois ó
sigo triste
retirante
ignorante
sem forró


***