(texto de minha adolescência, 1974)
CARTA A MEU FILHO
Em qualquer manhã você há de chegar.
Sinto-me correndo ao teu encontro para fazermos
um dueto. E uma orquestra imaginária se cala num
silêncio infinito enquanto reflito.
Hoje os sulcos do meu rosto, queimado pelo Sol,
traduzem o tempo em relembranças tuas, tão nuas,
tão claras a gerararem um momento de paz nesta
vida agitada e concorrida.
É garoto, é a nossa sina. Mas ainda imagino tua fantasia
na labuta do dia a dia. Clamo pela ingenuidade dos
homens, seus contos...teus desconhecidos. Nesta tríade
sou teu elo, e tua memória renasce nesta teia
de sentires falidos a renascerem nessa reciclagem memorial.
Há muito olho ao longo do mundaréu. Vejo a casa, teu
nome riscado na árvore da entrada. Vejo a relva orvalhada,
os animais campestres e os domesticados...você entre eles
de lá pra cá em bricadeiras, rolando pelo chão...
Às vezes sinto-me menino também, caminhando aos
últimos dias... estes por que passo me são eternos como
o álbum de recordações, recheado de frases que
inventávamos para cada ocasião.
Vejo um novo raiar de primaveras em minha cabeça calva,
e pronuncio orações, certo de nosso reencontro.
Símplices fatos vivenciais diuturnos resumem mais um choro meu.
Pequeninos objetos nas gavetas... e um olhar ao nada...
Mais uma noite dando os indícios, mais uma página
se fechando. Vejo suas roupas intactas no armário...
Impossível dizer todas as palavras à baila de
meu íntimo dicionário...
E para aliviar ponho-me a cantar:
"Ainda somos dois
Mesmo que a solidão
Me faça chorar,
Cantarei minhas canções
Pros anjos e pra meu pai
Que todo dia, todo dia
Abre o portão pra eu entrar."
Viro o rosto para o lado direito da cidade...
poucos metros, reobservo a placa com seu nome e foto
acima de seu corpo, o som de sua flauta ainda escuto...
me vem o maldito vazio que jamais há de se preencher...
***