domingo, 12 de outubro de 2014

ganhos & perdas.





ganhos & perdas




O câncer levou minha mãe. Veja o que ele fez.
De repente outra doença quer levar meu velho pai.
Na prateleira vejo fotos antigas do casório de onde surgi.
Vejo meu tudo, o que tive e não voltará jamais.
Resta, no quarto, o velho cobertor xadrez das noites frias de meus velhos.
Quantas vezes vi meu pai enxugando nele seus ais, deslocado, impaciente.
Vejo uma casa vazia, apesar da mobília, apesar das vasilhas...
Parece que minha mãe vai chegar para pôr tudo em ordem.
Parece que ela está aqui, mesmo quando abro o guarda-roupa e não vejo
aquele vestido, aquela blusa da lida diária que, num primeiro ato de tristeza,
a gente logo se desfaz.
Parece que meu pai a espera no olhar de quem diz:
“Filho, continue daqui. Vou ao encontro dela.”
Um vazio preenche a casa, o mesmo vazio que vai me perseguir.
A vida é bela, eu sei... eu sei, diz meu pai, em estado terminal.
Mas, quando estamos aprendendo a viver, vem-nos o acaso do destino
e nos deixa de real alguns objetos... uma prateleira... um cobertor xadrez
que conserva o cheiro e que relutamos em lavar...
nos deixa todo amor único... as lágrimas secas que ninguém vê... mas
que, até nosso final, choraremos no vazio o que a história nos rouba.




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