GERMINAL

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GERMINAL


Lá em cima do meu morro
Não passa carro
Nem tem ar esfumaçado
Nem teoria que pare em pé,
Pra mim mesmo faço mímica
Longe dos vulcões ativos
De qualquer petroquímica.

No meu morro abençoado
Não tem gente
À procura de namorado
E tudo que não tem encontrado;
Não tem antena no telhado,
Só minha cabana de pau arcado
No mato fechado
Tão perto do céu enluarado;

Lá tem uma trilha
Que sai da nascente
Sem esgoto, sem manilha
Um banquinho
Donde vejo o povoado
E o zunzunzum
Do vaivém comum.

Ali me escondo da vida vadia,
Pra mim é terapia;
Ali escavei um buraco no chão
E horas e horas fico deitado
No escuro úmido do terrão;

Gosto quando
As formigas e carrapatos me picam
Pra coçar as irritações que na pele ficam,
Gosto do zumbido
Dos pernilongos no ouvido;

Ali, observando nada
Pensando não pensar na alvorada
Manso
Rebobino minha natureza
Dentro do buraco que descanso
Não sinto falta do grupo
Nem se tem alguém de luto,
Não sinto falta de nada
Apenas tenho a vida desclonada;

Conto segundos decrescentes
Faço preces incoerentes,
Não sinto saudade nem rancor
Nem alegria nem tristeza
Nem pavor,
Não tenho sonhos
Não provo o manjar da mesa
Nem as primícias do agrotóxico,
Sou maluco heterodoxo;

Quero achar-me a mim mesmo
Em cima do meu morro
Sem pedir socorro
Pelas feridas psicológicas a esmo;
Quero comer gafanhotos,
Raízes doces, brotos,
Verduras cruas
Sem sal, sem azeite;

Quero domesticar ratos
Comer sem talheres nem pratos,
Não me barbear
Nem cortar as unhas,
Nunca mais no espelho
Ver a cara lazarenta de ex-narciso,
Nunca mais me banhar
Em ducha d'água quente;
Quero estar nu
Sob a água da chuva fria,
Quero ser um animal desumano
Pois animal é mais humano que eu;

Dizem que sou lunático
(que se foda as rimas!)
Que como peixes vivos do ribeirão;
Dizem que sou mudo,
Não sou, apenas emudeci;
Dizem que sou analfabeto,
Asqueroso, arredio, cavernoso...
Que enfiem no cu toda comunicação,
Que fiquem vendo televisão,
A violência do dia a dia,
Mas, este bastardo aqui,
Com os olhos
Flores silvestres acaricia...
Nem uma folha amarelecida
Cai na mata sombria
Sem despertar minha vigília;
Sensível sei do seu ciclo de vida
E, todo saber não saberia
Explicar tamanha sabedoria...
Por que o porquê é assim?...
Porque o primata formou o grupo
Porque o grupo formou a mim!

Espero que quando eu morrer
Dentro de minha cova
Meus desafetos mijem em mim,
Sim, quero apodrecer,
Sim, me cubram com a merda
Das latrinas, fedorenta,
Mas lembrem-se
Que só quis viver por viver;
Meu único lamento
É ter me sentido racional...

Caminho pronto é fácil.
Difícil é decidir...
Começo a achar
Que se eu fosse um monge tibetano
Me seria cômodo demais...
Ser só em grupo é opção,
É intelecto,
Tendência nata, dom...
Não tenho nada disto;

Todo meu pensar tá lesmando...
Regredi eras e eras...
Adeus mundo novo do gás carbônico!
Feliz mundo velho do oxigênio!

Vou me recolher.
Vai amanhecer.
Vou morrer do jeito que nasci:
Sem saber.




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Companheiros de Estrada & Amigos