quarta-feira, 16 de abril de 2014

a vida me fez assim






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amarei as almas
na devassidão das noites
se melancólico estou
e a alegria deles
fere-me com açoites

amarei a vida
se a pessoa mais querida
fez-me alma sofrida
e se foi senil
sem se despedir
num lindo dia primaveril


amarei meus companheiros
se à boca pequena
são corvos matreiros
dentro da sujidade social
vivem só de momentos
sempre se lambuzam
e de suas bondades
só vejo excrementos


amarei as mulheres
numa mesa de pôquer
se só eu não sei
que as cartas estão marcadas
pro bôbo-da-corte diverti-las


sempre amarei
saber-me o último das filas
pra ver o canto desesperado
a simplicidade no falar
do humilde não humilhado

amarei as alvoradas
os pássaros em revoadas
as piracemas da procriação
alguns homens ilustres
soldados da não-extinção

amarei a majestática porção
que nem sei se faço jus
amarei a flux
o básico de cada cidadão

amarei poder amar
tão pequenas coisas
como o flerte
dum casal edênico apaixonado
despedindo-se à beira-mar


amarei o grito louco
meio a um ciclone
dum imprestável aventureiro
que bata às minhas costas
e me direcione aos poucos
aos poucos risque o chão a giz
resquícios de amares que me restam...


...se nada se renova em minha memória
senão meu repúdio a fatos vis
digo que sempre amarei e me amarei
pra poder dividir
poucas lições que me prestam


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