quarta-feira, 9 de abril de 2014

TALENTO





Ele era um excepcional redator.
Um crítico de arte eclético. Culto.
Sempre quis fazer poesia. Jamais conseguiu.

Certa ocasião apaixonou-se perdidamente.
Não foi correspondido. No clímax de tão definhante
sofrer -- para desabafar -- ali, só, no recôndito do
quarto -- escreveu os seguintes versos:



" Te amo tanto e sofro...
Mas o sofrer enfeia a tenra idade,
Tão curto do infindo é o logro...
Rouba silenciosamente
Até os resíduos da mocidade;
Rouba o elixir, a gana
De se montar no presente
flama da idílica felicidade,
Mas, cá chorando,
Em versos lamentando
Externo o desengano
E me sinto mais leve,
Porque o amor é de quem se atreve
Montar o quebra-cabeça
Despistar o pranto que porventura apareça;
Porque o amor é cola que dá liga
Remontando os estilhaços da vida;
Porque o amor é de quem se atreve
A uni-los em tempo breve...
E se não me amas e choro
É porque, sem querer
Descobri o quê de quem poesia escreve."



Ele, hoje em dia, ainda é um excepcional redator.
Um crítico de arte eclético; muito, muito mais culto.
Sempre quis fazer poesia...

Remexendo suas anotações antigas, encontrou o
singelo texto acima que nem se lembrava mais
que escrevera.



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(Rehgge: amo este meu 'poemaconto')
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