domingo, 12 de outubro de 2014

Iara do meu rio.







do lado de lá
meu zóio margeia
a sereia que me atino
é lá que mora
a razão do meu destino

de manhã pego o picuá
o passaguá
o saquitel filão de pão
subo no barquinho
remo remo
indo e vindo
pro zóio dela me acompanhar
ganhar um beijo de longe quiçá
da bela do meu torrão
caboclinha lá da choça
do alto do espigão
enfeite deleite
do verdor da imensa roça
cantiga do meu sertão

vou  me achegando
na margem de lá rondando
ela abre o portão
disfarça ingênua
catando gravetos no chão
sorrisinho maroto
perco o compasso a direção

me dá um aceno
fico de ponta-cabeça
digo vou e volto
por favor
por favor não me esqueça

desço o rio
sem que meu brio esmoreça
planando nas nuvens
dum  dia nossa união
festa e rapapés
lanço a poita
entre os igarapés
improviso
assobio uma canção:

"vem vem vem
Iara do meu rio
traz o calor bela flor
pro pescador solitário
aquecer seu frio,
traz o cardume
pra encher meu samburá
pr'eu comer contigo
peixe enfarinhado no fubá"

de tarde quando volto
repito a experiência
outro aceno eu ganho
sou moleque que rema-rema
porque o amor é paciência
mistério
pesca sem esquema
sal da vivência

sem queixume
vou ser moço
inda dela o lume
o futuro que me arrume
se eu não morrer de querência


***