segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Do outro lado daquela montanha.

(prosa poética de minha mocidade, 1978)





Do outro lado daquela montanha deve haver... há um sol, uma estrada, um rio...
Deve haver belezas além dos olhos, do pensamento. Deve haver uma porta. Deve haver
um velho clareando à noite com o seu lampião como se segurasse uma estrela dentro
dos sonhos impossíveis de hoje. Lá os pesadelos inexistem. Lá não se sonha. Lá é o sonho.

Do outro lado qualquer um gostaria de estar sentindo-se animal meio à natureza nua
escondendo-se. É noite... sei da tristeza de muitos por não se realizar à visão de lá se poder
chegar. Do outro lado o Sol dá o seu "bom dia" a floresta, enquanto os homens daqui 
dormem em busca do sonho perdido: a visão pessoal perdida no paraíso introspecto.

Do outro lado, na estrada, passa uma carroça que traz a vida de uma só direção; traz
um homem cantando uma canção, alegrando a todos. Amanhã, de alguma forma, todos a
cantarão... Lá a paz é prática - o saber é a música no ouvido.

No rio, paralelo à estrada, flutua um barco que traz uma navegante cortando com o seu
olhar o horizonte... imensa é a sua mansidão à procura do complemento de uma canção.

O barco e a carroça logo se encontrarão. Lá diante, rio e estrada cruzam-se múltiplas
vezes-, não pela imaginação nem pelo acaso.

Do outro lado a vida é criança: a natureza amamenta-a. A vida é adulta: o amor
não é fruto de abraços, beijos e palavras. É normal. O amor é a semente, a árvore, o
pássaro nela acolhido...

O outro lado daquela montanha ninguém conseguirá mudar... porque é tão claro
aos meus olhos e faz-me ver tudo ao contrário daqui.

Do outro lado daquela montanha espero conseguir chegar brevemente. Lá inexiste
o "hei de vencer" e o "amanhã é outro dia". Inexistem os sete pecados, os dez mandamentos;
inexiste à fuga do artista consumido pela realidade, inexiste a vara e o açoite.

O outro lado força nenhuma mudará -- nada me fará esquecê-lo --, nem mesmo as palavras
que sempre saem de bocas erradas e, o irreal das mentes daqui já é-me tão familiar que faz-me
caminhar rapidamente para lá.

A estrada -- a minha -- ainda está fechada em algum ponto. Mas o que me separa são
alguns metros alongados dia a dia pelo homem. Mas no escuro, o velho com o seu lampião,
continua dando-me o sinal.

O Cruzeiro do Sul é minha bússola. Estou manso -- porque ser manso é não chorar
pelas minhas feridas sociais e, do outro lado, quando eu lá chegar, mil animais
irão curar-me.



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