sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

O trono dos verdadeiros.







No final do corredor,
na antecâmara escarlate
ao lado do quarto real,
eis que me assento
depois de um dia extenuante.

Preciso pôr em ordem,
na sala à frente, o carfanaum
em que se encontra
meus projetos e cópias de processos
empilhados sobre a mobília...

Tantas informações,
tantas decisões a tomar
e dar meu parecer final, enfim...

Pensei no almoço, na reunião:
aquela mortadela defumada,
petiscos, bolinhos de camarão,
aquele peixe ao molho branco,
aquele cajá meio passado...
Lembro-me agora
dos pratos e guloseimas.

Problemas neste jornal
logo na primeira página,
o caderno de lazer,
enfim, a página cultural.

Quanta responsabilidade em minhas costas:
pagar as contas de meu povo tão íntimo,
fazer planos
e estabilizar a economia familiar.
Fardo pesado é ser rei.

Estou com três casos pendentes
pra resolver no fórum;
tomara que dê acordo.
Estou ensimesmado, mas confiante.
Como é duro sentar no trono dos verdadeiros
e pensar em tudo que me rodeia...
traçar indiretamente o destino de outrem.
Até ao pó, sem querer, muitos lancei
com procuração e palavras de rei.
Defendi, em juízo, até ladrão de galinha.
Mas, graças a Deus,
posso me sentar no trono dos verdadeiros,
não porque me elegeram,
elegi-me a mim mesmo por instinto, creio.

Aqui refletindo ouço o vozear lá
das ruas, de crianças, serviçais...
Levanto-me.
E, pela fresta da janela
vejo o vendedor de pamonha
fazendo o seu 'merchan' com seu megafone,
e outro, com os seus cacarecos,
puxando a carrocinha.
É o povo.
Pessoas sós e aos pares, felizes, falando da vida.
E, vez por outra, carros apressados
com seus motores barulhentos.
É, todos livres e eu aqui
esforçando-me ao máximo
para entender a roda viva.

Sinto-me estupefato de tanto pensar.
O suor corre no meu rosto
como se o dia inteiro na roça,
debaixo do Sol,
eu estivesse a capinar.
Dou outra repassada no jornal,
no caderno de esportes:
meu time, de novo nada,
nada, nada e morre na praia.
Meu time é o Real.
Como pode perder pra esses pés-rapados?

Passo o antebraço pelo rosto, de novo.
Já é agosto, mês do meu aniversário.
Vejo queima de fogos, balões, rojões...
meu nome em faixas publicitárias:
"Reeleja Rehgginho, o nosso reizinho
Que não faz burrada, faz tudo direitinho.
Viva o rei!"
Tenho que rir.
Afinal, não posso ser 100% sério
porque certamente o hospício me aceitaria.
Mas não, não,
não posso me dar ao luxo
de quebrar minha seriedade, minha sobriedade.
Destinos estão em minhas mãos.
A justiça está embutida em mim
como uma natural camuflagem,
como um caroço de abacate que se descarta,
mas que sem o mesmo a fruta não seria.

Estou no trono dos verdadeiros.

Um último esforço à limpeza do meu ser.
Levanto-me do trono.
Meu jornal está desfolhado.
Noto meus dedos pintados de tinta off-set.
Tudo está contaminado.
Tudo está fétido ao redor.

Preciso por ordem na casa,
pois sou o rei deste palácio.
Não, ainda não!
Um último 'aqualouco' faz 'tigum'.
Chiii! o papel úmido rasgou bem agora!
Sem querer cutuquei a raiz.
Este jornal veio a calhar.
Vou usar a página de classificados.
Não a leio mesmo.






(2/2/2009)

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