terça-feira, 17 de março de 2015

introspecto & circunspecto.





  INTROSPECTO & CIRCUNSPECTO   


(um olhar de dentro pra fora e de fora pra dentro)
"texto para poucos entenderem, pois o mesmo vai além da vã filosofia, creio"



"Meu ser balança num trapézio com uma plataforma

segura à esquerda e à direita. Na plataforma há um
enorme calhamaço de minhas passagens e histórias.
Reescrevo-as por cima delas  relevando-as e
sublinho o que é-me vital, aproveitável. Nem sempre
estou em sã consciência. As folhas em branco,
restantes, ocupariam muito de meu tempo para
relatar fatos novidadeiros, especiais. Um apagão memorial
se dá quando eu perco o impulso e fico no marco zero.
Então, começo a me agitar com uma nova ideia, uma
nova filosofia que resuma minhas experiências. Minha
cabeça tem luz própria e sua energia emana dos
intelectos desdenhadores se digo que o Universo
sou eu: um ser segredista a destrinchar o real com
pensares abstratos, pois há seres obscuros que habitam
minha memória, usam minha máquina e tornam-me
apenas figurante, um cronista relegado a segundo plano.
Afinal, os espectadores estão na expectativa do sucesso
ou não do trapezista mental que se redescobre em seus
próprios parágrafos."


...



INTROSPECTO

(visualização do que sou, de forma indireta, na terceira
 pessoa, para tornar entendível a ideia)



Um vadio caolho e coxo a manifestar-se com a voz

embargada em palavras que, imaginárias, tornam-se
reais em garranchos num calhamaço manchado de suor
e álcool -- intermináveis. Mas que os dedos nicotinados
descrevem seus pensares natimortos, já que não vê
ninguém dentro de si, só o oco e um corpo preso a um
trapézio em vaivém. Há um circo e os espectadores,
do lado de fora, querem drama, um novo capítulo do
ímã de seus sentires, de seus absurdos. Querem sugar-lhe
as entranhas de visões inentendíveis, indizíveis, que morrem
numa página e ressuscitam noutra. Querem a insônia do
pensador, sua corda-bamba. Ele, apenas dormir com
seus sonhos utópicos paralelos às suas dores nos
deslimites da loucura se se vê já em carne e osso, tal
imaginação a diluir-se no éter.


...




CIRCUNSPECTO

(uma breve continuação da ideia supra, pois ele sou eu mesmo
no trapézio mental )


E, olhando de seu trapézio mental os andantes e falantes

com suas máscaras de orco (festivas), de céu (choro e
piedade), está convicto que foi ao imo da mutação dos
espíritos e deseja parar no tempo. Sentiu um redemoinho
cobrir de terra e areia os espectadores, e, somente ele
o coxo, o caolho, sobreviveu depois da queda. Avistou
dali uma grande metrópole seguida de outras. Havia, ainda,
milhões de pessoas: o mundo não acabara. Pôs-se a pensar
em como pintar um quadro que resumisse as ondas de seus
altos e baixos. Impossível... acabara de atrair todos as dores,
os presságios, os pecados, as ilusões, os desejos e se tornou
um psicótico plural. Já não era ele. Perdera a identidade e
chorou lágrimas que se evaporavam ao tocarem o solo.
Com um estilete fez um xis profundo no peito e, descamisado,
margeou seus horizontes para não se perder em meio a multidão
de cabeças padronizadas. Sim, sou um vadio -- ironizou.
O que sou?... um meteorito a estatelar-se entre tantas pedras?...
um asteróide magnético capaz de atrair todos os olhares?...
Na verdade, suas verdades caducaram em delírios
fantasmagóricos, segredando em seus ouvidos frases
que se lhe emudeceram à realidade negra que o faz acender a luz
interior e divisar uma saída, um estratagema à fuga da
labiríntica possessão vital num calhamaço imaginário
escrito com fatos e coisas palpáveis.




OBS: o texto beira à loucura, mas o contexto do imaginário

quem há de interpretar?




"O visível é o império dos sentidos, captado pelo olhar e dominado pela subjetividade; o inteligível é o reino da inteligência (nous) percebido pela razão (logos)."




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