segunda-feira, 30 de março de 2015

pelas ruas da América



(poema de minha mocidade)




pelas ruas da América
vou compondo uma canção
assobiando vou pra casa,
está finda a lição
a lagoa rasa
de sentir-me sem nação.

pelas ruas da América
penso em todas as raças
nos reflexos das vidraças
dos ricos lares multicores
desfavores
reverso da prata
cão vira-lata
lata ao mundo
lata de lixo
capricho da ambição
dos enlatados
num filme de televisão,
pra baixo o arroz-feijão
sem mistura
dos que têm as cartas na mão.

pelas ruas da América
vou compondo uma canção
quem tem estrela
quer constelação
direita e esquerda
numa situação crítica
buscando medalhas
na olímpiada política.

pelas ruas da América
sua rica natureza
arma civil sobre a mesa
ceando com certeza
à pobreza
dos descalços pés no chão
sem sentido na vida,
oração insensível
realidade
pressa indizível!

pelas ruas da América
de padrão internacional
narcotráfico
desconcerto mundial
pombas na catedral
tal gente um ideal
seu ninho construir...
justiça social que morreu
aos que como eu
tem uma canção
sem música e redação.

pelas ruas da América
vou compondo uma canção
assobiando vou pra casa
que o rico viva bem
e o pobre também
que ninguém fique calado
defendamos nossa cultura
com braços ao trabalho feitos
pela verdade falsidade matar.

pelas ruas da América
vou compondo uma canção
num grito de vida finita
que nesta escrita
é o além-pão
a triste visão
d'esperança ela suplica.

pelas ruas da América
vou compondo uma canção
assobiando vou pra casa...
e por que falar em outras
se não as conheço?

(1980)



***