ENTREVISTA COM CARAMURU







Ei, Caramuru! o que o trouxe a um shopping

de Brasília?
MIM DANÇA ÍNDIO, BRANCO MOSTRA DENTE BOCA
LOJA LUMIA SOL.

Caramuru, e essas roupas modernas? - puxando-lhe o terno.
MIM VERGONHA - escondendo os olhos com o braço - NU
QUI BRANCO JAULA BICHO. MIM QUI COSTUME DAQUI -
foi o que entendi.

Caramuru, cê quer ser igual ao branco?
HÁ, HÁ! - num sinal negativo com a cabeça - MIM
GOSTA COISA BRANCO.

Caramuru, cê-qué-o quê?
CARAMURU QUÉ GORA COISA CASA BAHIA, FOGO,
FOGAL, GENTE CAXA, TEVELISÃO!? - mostrando-me
um sinal de quadrado com as mãos e completou:
BONITO GENTE LÁ.

Caramuru, mas isso é coisa de branco, não é?
CARAMURU PENSA FALA, BRASILERO QUÉ FALÁ
MERICANO, NUM QUÉ?

Sim, o inglês é fala universal, a língua de tudo - fiz-lhe
um movimento circular mostrando o horizonte.
INTÃO, BRASILERO NUM QUÉ COSTUME - (costume? -
disse-me) - COSTUME MERICANO, QUÉ?

Não.
INTÃO, CARAMURU SÓ QUÉ - (coçando a cabeça) -
COMÉ MEMO? - (avanço, falei) - AVANÇO - mostrando-me
as vitrines - NÃO COSTUME BRANCO.

É... tá certo, mas antena parabólica na aldeia, celular,
 por quê? - apontei.
CARAMURU QUÉ SABÊ PASSA MUNDO. QUÉ GOROBILA...
GROBALIÇÃO!... VÊ NOVELA GOROBO, GROBO?

Mas Caramuru, o senhor não vê que isso fere à tradição,
o costume indígena, do índio?
BRASILERO TROCA COISAS CHINA - apontando o mapa
mundi. TODOS BOLA COMPRA COISA CHINA. I NINGUÉM
QUÉ VIVÊ CHINA. CHINA ZÓIO PEQUENO, MIRIM - piscando -
I CHINA NUM QUÉ MORÁ MERICANO, INTENDE?

Caramuru, e esse relógio no pulso, por quê? -
diz a lenda que os índios se guiam pelas astros e pelos
instintos dos animais, não é?
(Obs: fiz muita mímica pra que ele entendesse)
É. MAS EU TEMPO PRECISA. EU NUM ESPERÁ ESTRELA,
LUZ CÉU, CANTO BICO AVE, SOL MAIS NUM. CHUVA
CARAMURU... - fez-me o sinal de fodido com as mãos.

Caramuru, e esse chapéu mexicano?
CARAMURU MAIS SABIDO QUECÊ - em tom irônico -
NUM FICÁ FOGO CABEÇA CIDADE QUENTE.

Caramuru - insisto - cê qué sê branco?
NUM, NUM. MIM PENSA LONGE LÁ - (dando-me um sinal
levantando e abaixando o braço) - QUANDO VOLTA ALDEIA
ROUPA BRANCO NUM MAIS. ÍND'JO VIRA ÍND'JO.

É a tradição?
É JETO NÓIS. - movimentando a cabeça.

Caramuru, o senhor não tem medo de - nesse convívio com
a cidade - levar doenças e costumes do branco a sua tribo? -
(apontei com o dedo em riste e fiz um círculo dentro de outro
círculo) - ele entendeu.
CARAMURU PONTA ESPINHO FURA. CARAMURU NUM QUÉ
BRANCO ALDEIA, NUM, SÓ HOME BRANCO FURA, DÁ
PEDRINHA COR FLOR MATO... MÉDICU?

O senhor não teme por uma invasão, isso é, o branco ir morar
em sua aldeia e expulsar teu povo? - bati no seu peito e o empurrei
dizendo-lhe: "Sai, sai, índio animal" - ele entendeu.
NUM. ÍNDIO? - PRESENTE FUNAI. LÁ LEI ÍNDIO. LÁ TERRA
ÍNDIO - mostrando-me um círculo pequeno dentro de outro
maior num desenho imaginativo.

Caramuru, como o senhor se sente fazendo parte do grupo
mais primitivo dos brasileiros, ou melhor, um primitivo desta
terra antes do antes da história?
(Obs: perguntei-lhe de outra maneira: "Caramuru - bati o pé,
fiz um buraco no chão, pus um ramo, enterrei, olhei nos seus
olhos, abaixei-me e vagarosamente puxei o ramo de volta dando 
a entender que saíra da terra, disse-lhe: Esse Caramuru, terra?"
SINTE MUITO EU. PERDI TERRA GOVERNO. TUDO ERA ÍNDIO.
HOME BRANCO BOLA - apontando para a Praça dos Três Poderes -
MUDA ÍNDIO TERRA. NÓIS POVO BOLINHA - dobrando o polegar
e o indicador - PRECISA PAZ BRANCO.

Caramuru, e esse rádio? Já tem energia elétrica na aldeia? - 
peguei um cipó no jardim da praça, estiquei, levei uma de suas extremidades na direção do aparelho.
FAZENDA DEU LUZ ÍNDIO. ÍNDIO MADEIRA BRANCO.
CIPÓ COMPRIDO, RAIO. ÍNDIO GORA PODE CONCHA
VOZ. MATA GRANDE CAMINHO RIO PERTO LUA...
CORINTIA GOOOOOOOL!!!

Obrigado, Caramuru.

Despediu-se num ritual todo seu e... lhe fiz uma pergunta
querendo imitar sua linguagem:

Conchinha abre fecha, boca peixe fala tem?
NUM É CONCHINHA. É CELULAR.



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