sábado, 20 de setembro de 2014

símbolo.




punhal na cintura
encarava o mundo
me dava exemplo
à fuga do poço fundo

ficava ali à porta
o velho templário
da casa amarela
com seu hinário

na entrada defronte
me fazia limpar o pé
olhava nada no horizonte
sorria à minha mãe
bebericando café

de segunda à segunda
eu via o trilho de suas pegadas
suas botas enlameadas
o suor na velha camisa encharcada
mas eu só percebia -
quando ordenhava a vaca leiteira -
o brilho reluzente do punhal
no cinto de sua calça rancheira

era assim a tarde inteira
no final o sinal da cruz
antes do cuscuz
revisando seus trecos
ao pé da mangabeira

cuidava dos pássaros ariscos
jogava milho às galinhas
passava o rastelo nos ciscos
heranças que seriam minhas

cuspia a gosma nicotinada
do  fétido cigarro de palha
cantarolava glória a deus
com os olhos no verdume
que  hoje os meus embaralha

eis que vinha a lua prateada
surgir no fim da jornada

apontar seu sonho
encostar sua enxada
namorar minha mãe
comer
dormir
esperar
o galo cantar de madrugada

meu pai nunca usou o punhal
que eu via na sua cintura
o punhal era sua marca de guardião


***