terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

onde tu estás.





"Lembro-me de você, ansiosa, na varanda como uma
colegial, esperando que eu dobrasse a esquina e
apontasse lá no fim da rua. Hoje, amiúde, nas tardes
e noites adentro, sem querer, fico de lá observando
até o celular tocar. Uma voz feminina me fala dum
encontro. Sorrio e me pergunto se é de ilusão
que vivo."




ONDE TU ESTÁS


Estás em cada decepção
de amores fugazes
nas pedras onde se quebram
as ondas dos mares,
em cada olhar vazio
a idos luares

Estás comigo nos bares
na dose dos humorados...
nas ilusórias vitrines de shoppings
a roubarem teu olhar...
estás nos bailes frustrados
em que me vejo em solitários
que voltam sós nas madrugadas
temerários
de onde estarão suas amadas


Estás a ferir-me o peito
as entranhas
com a dor envolvente
de minhas manhas
intercalada
a perguntas viciosas
tal droga  definhante
sem que eu queira me livrar
padecente
do que me faz viver...

Estás no quadro
ao lado de minha cama
junto ao cinzeiro lotado
de bitucas de cigarros
e em pequenos utensílios
que deixastes no guarda-roupa...

Estás na minha vida louca
nos meus banhos de mar
naquele passeio ao atol
naquele restaurante
encantada com o canto do rouxinol
rindo  à toa
com a espinha de peixe presa ao dente
tomando um chope
vendo o pôr-do-sol...

Estás, ainda
na parede onde teu nome escrevi
bem em frente a porta da cozinha
descolorindo-se
tal tatuagem que fiz
aguardando uma repintura
pela jura que nunca esqueci

Estás na viagem
no meu  laiá-lá-rá
naquele livro
que líamos a bordo do avião
a meio caminho de shangri-la

Estás tão dentro de mim
que até me esqueço
que já estive dentro de ti
incapaz de achá-la...

ah, mas as lembranças
amanhã, talvez outras
só me trazem uma pergunta:



onde tu estás?




***